sexta-feira, 8 de junho de 2007

FIZ UM ABORTO AOS 23 ANOS

Morando já no Brasil, onde é ilegal tal ato (sou colombiana). Então o fiz em uma clínica clandestina do centro da cidade (São Luis/MA). O sofrimento de estar fazendo algo que atenta contra a vida, mas que me era a única opção, somente aumentou ao ver o ambiente, ao ser atendida sem sequer pedirem meu nome, mas estipulando o preço, muito alto por sinal, quase o valor de um parto em hospital particular.
O cheiro nunca sairá da minha cabeça, cheiro a desinfetante de alfazema.
A sala da recepção, cheia de mulheres de todas as idades, algumas mudas, outras como se fosse uma reunião informal. A TV em som muito alto, para abafar os gritos (sim gritos) que saiam de lá de dentro. Por que imagino que usaram algum anestésico que permite à pessoa, ficar meio ligada ao meio.
Chegando minha vez, entrei no consultório do médico (que depois fui saber é médico legista, não obstetra, nem ginecologista), e novamente me foi passado o valor do aborto, sem nomes, nada.
Entrei em pânico, ao pensar, “sem registros, posso morrer e ninguém dará conta de nada”.
Examinou-me numa mesa antiga, com piadas de mau gosto: "...é na hora do sexo vocês gostam mas depois se lascam".
Senti-me lixo...O quê sabia esse homem sobre mim? Sobre minha vida, para me julgar e humilhar? Dentro da sala de cirurgia, pequena, vi que nenhum dos instrumentos era descartável... Meu namorado (hoje marido) me disse que fiquei lá dentro uns 15 minutos, depois me levaram carregada para um espaço onde outras descansavam ou vomitavam sem parar, eu também. A enfermeira me entregou um pacote de “modess”, e me disse: "Dentro de quinze minutos você se arruma e vai embora, pegue a receita na saída, porque tem muita mulher lá fora, e preciso do leito".
Sai de lá, zonza, nauseada, e com um fluxo de sangue intenso, e muito, muito, dolorida. Passei 20 dias sangrando, e fui à minha médica, lá ela constatou com exames de ultra-som que havia um feto sem vida ainda dentro de mim... Ver aquela forma, me deixou no chão. Tive que voltar àquele lugar soturno, com exame em mão. Ele me olhou, olhou o exame, e disse, "é vamos lá de novo, isso ocorre quando são gêmeos, um fica escondido detrás do outro, fazer o quê..."
Se me protegia antes e durante do sexo? Sim, tomava anticoncepcional.
Se faria de novo? Não sei.
Apoio o aborto como meio anticoncepcional? Não!
Apoio o aborto legalizado para que ninguém vivencie o que eu vivi.
Apoio à educação sexual sem preconceitos em casa e na escola.
Apoio a tomada de consciência quanto a assumir que a clandestinidade nessa área existe, defendo o “dar nomes aos bois”, ao invés de fingir que nada ocorre. Ou “se” ocorre é coisa de outros, não de nós.
As políticas públicas não podem mais ficar cegas e mudas.
O silêncio é a pior traição que uma nação pode perpetrar perante algo desta magnitude.
Apoio o esclarecimento sobre as conseqüências que há na prática do aborto clandestino.
Hoje sou mãe, feliz em sê-lo.
Não sou mais católica.
Sou pagã.
E nunca irei esquecer aqueles dias.
Luciana Onofre Martins
São Luis-Maranhão

7 comentários:

Rosa disse...

Lí o post e senti algo estranho por dentro.Não te condeno por isso.Não sei se faria o mesmo.Só quem passa sabe as dificuldades.Uma gravidez já é bastante difícil.Não te considero pagã.Acredito que na hora do seu desespero o que encontrou foi esta forma.
Abraços

Luciana Onofre disse...

Mil coisas passam pela mente, e numa velocidade inacreditável.
Esse processo não o desejo a ninguém...
Mas se alguém passar por ele, que seja em meio salubre, com assitência médica idônea.
Mas que jamais seja método anticonceptivo.

Danielle disse...

Luciana, você é uma mulher muito corajosa por nos dar esse relato num espaço público como um blog! Se vc me autorizar, gostaria de postar seu texto numa lista feminista da qual participo. Lá as meninas focam em leis etc., e acho que um relato desse, bem humanizado, daria a elas outra perspectiva do problema.

Naiana disse...

Concordo com as outras a respeito de você ter sido muito corajosa em fazer em tal lugar, mesmo sabendo que o cara nem obstetra era e pelo fato da "piadinha".

Claro que há muitas historias iguais a sua ou até mais infelizes, aqui no Brasil. Por isso que sou a favor do aborto.

Muita gente pode achar um absurdo, mas acho que tem muita mulher que se previne mesmo porque realmente nao quer um filho naquele momento e por um descuido certa vez, acaba pagando o pato.

Também não acho que deve ser tratado como um metodo anticoncepcional, mas como uma opção a esses casos.

Kytanna disse...

Lu, achei seus escritos sem querer nesse blog, li e fiquei estupefata. Não te descrimino sobre o que fez, e quem sou eu para isso? Mas seu texto, me tocou , mexeu comigo como nenhum outro do gênero. No momento em que lia pensei em vc, e tb em minha mãe, que b já fez aborto antes de mim. Pensei em tudo que vc sofreu e pensei nela, minha mãe, em tudo que deve ter passado na cabeça dela, assim como na sua, todas as impressões que ficaram nela, assim como em vc, o lance do cheiro foi muito marcante.

Sou a favor da vida, e tb a favor da vida dessas inúmeras mulheres que encaram a morte ao fazer isso, a morte do bebê e a posivel sua, pois o índice tá aí, muitas mulheres morrem por fazer algo assim escondido, pq o governo finge que isso não ocorre.

Luciana Onofre disse...

Señora de los Ojos Brujos, sentir tua presença amiga, mesmo hoje depois de tanto tempo do ocorrido, me faz sentir "humana", por saber que podemos ser capazes de compreender os outros e ainda que as atitudes sejam não convergentes, continuar a gostar dessa pessoa, obrigada por ser minha amiga...

Luciana Onofre disse...

Danielle podes sim fazer uso do texto, porque ele foi "parido" com dor, mas para evitar outras dores...

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